Curte, comenta, compartilha e se ama: reflexões sobre gordofobia, cotidiano e ativismo gordo nas redes sociais
Resumo
A estigmatização e o preconceito contra pessoas gordas, denominado gordofobia,
impacta negativamente o cotidiano, especialmente de mulheres, que são cobradas
muito mais a manterem o corpo “ideal”, em detrimento de homens. A discussão
sobre a gordofobia e o corpo gordo vem ganhando espaço no ambiente virtual, que
passou a ocupar um papel importante no combate a esse preconceito e no suporte a
mulheres gordas para enfrentar seus desdobramentos, funcionando como
ferramenta do ativismo gordo. Diante do exposto, e considerando que na terapia
ocupacional a temática ainda não é abordada, o presente estudo objetivou investigar
as repercussões do acesso aos perfis e aos conteúdos de digitais influencers gordas
no Instagram no cotidiano de suas seguidoras. Trata-se de um estudo transversal,
de abordagem quanti-qualitativa, que foi realizado com 43 mulheres gordas que
seguem pelo menos uma digital influencer gorda no Instagram. O processo de coleta
de dados se deu por meio de questionário online veiculado em redes de mídia
sociais. Para a produção da análise foi aplicada estatística descritiva e adotado o
método de análise temático-categorial de Bardin em diálogo com as referências
teóricas norteadoras do estudo. A análise do material permitiu constatar que todas
as participantes já tinham passado por pelo menos um episódio de gordofobia ao
longo da vida e que a vivência desses episódios resultou em inúmeros impactos
negativos em seus cotidianos, tanto em relação a dimensões subjetivas, de ordem
emocional e até mesmo acarretando transtornos psiquiátricos; como também em
relação a questões concretas do dia a dia, através da vivência de barreiras,
dificuldades e rupturas na realização de atividades tais como vestir-se, ocupar
lugares públicos, praticar exercícios físicos, ser fotografada, entre outras. Os dados
apontaram que o acompanhamento de perfis administrados por mulheres gordas na
rede social Instagram amenizou os impactos desse preconceito no cotidiano das
participantes em variadas dimensões, trazendo repercussões positivas para forma
como as mulheres olham para si e para seus corpos, promovendo a criação de
redes de pertencimento, a abertura para relacionamentos socioafetivos, maior
confiança para realização de fazeres cotidianos e o rompimento com a ideia de
emagrecimento compulsório, além de estimular a reflexão a respeito da
estigmatização sofrida por pessoas gordas. Dessa forma verificou-se que o acesso a
esses conteúdos auxiliou no enfrentamento da gordofobia e configurou-se como
uma importante estratégia de contato com o ativismo gordo. Conclui-se que as redes
sociais podem se configurar como potentes ferramentas para o desenvolvimento de
ações para com essas mulheres, se configurando como espaço de produção de
redes, acolhimento e fomentando a construção de perspetcivas críticas à gordofobia.
Também evidencia-se que a temática, de natureza transdisciplinar, é passível de ser
abordada por diversos campos, dentre estes a terapia ocupacional, assinalando-se a
importância do desenvolvimento de novas produções sobre o assunto.